Álcool e câncer na Austrália: evidências que reforçam a associação dose-resposta

Por Juliana Plens

Um grande estudo longitudinal australiano publicado na revista Nature foi avaliou a relação entre os padrões de consumo de álcool auto relatados de 226.162 pessoas acima de 45 anos e analisou as incidências de tumores malignos primários nessa população. Foram investigadas as quantidades de doses de álcool ingeridas por semana e quantos dias por semana a pessoa costumava beber, a fim de gerar duas variáveis: o total de álcool consumido pela pessoa em uma semana e o padrão de consumo ao longo da semana.

O estudo mostrou que 67,1% consumiram pelo menos uma dose de álcool por semana, incluindo 14,4% que ingeriram mais de 14 doses de álcool por semana. Foi constatado um aumento no padrão de ingesta de álcool desse estudo em relação aos dados da Pesquisa Nacional de Saúde australiana de 2007 e 2008.

Comparados com bebedores leves, os bebedores pesados apresentaram maiores chances de desenvolver câncer de boca, faringe, laringe, esôfago, fígado, cólon, reto e mama. O risco de todos os cânceres foi significantemente aumentado quando se ingeriu mais de 7 doses de bebidas alcoólicas por semana. O risco foi maior em mulheres em comparação aos homens. Aos 85 anos, o risco absoluto de ter câncer associado ao uso de álcool foi de 17,3% nos homens e 25,0% nas mulheres para aqueles que consumiram > 14 bebidas por semana, em comparação com 12,9% nos homens e 19,6% em mulheres para aqueles que consumiram de 0 a <1 bebida por semana.

O estudo mostrou um risco maior de câncer de mama em mulheres que consumiram 14 ou mais doses de bebidas alcoólicas por semana quando a ingesta ocorre em 1, 2 ou 3 dias na semana em relação ao risco das mulheres que consumiam a mesma quantidade diluída na semana ao longo de 4-7 dias.

Vale ressaltar que a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) já postulou a associação entre o consumo de álcool e o câncer de mama. A Fundação Mundial de Pesquisa do Câncer concluiu que o consumo acima de 45 gramas de álcool por dia provavelmente está associado ao aumento do risco de câncer gástrico.

É importante ressaltar que se constatou que muitas pessoas que bebem pesado não percebem seu nível de ingesta, denominando-se “bebedores leves, ocasionais ou sociais”.

Conclui-se que o consumo de álcool confere um risco significantemente aumentado de diversos tipos de câncer, incluindo o câncer de mama e padrões de beber podem estar independentemente associados ao aumento de risco de câncer de mama.

Esses dados mostram que são necessárias intervenções que foquem na diminuição da ingesta de álcool como a criação de campanhas educacionais, guidelines informativos sobre a prevenção de doenças crônicas, como o câncer, disseminar informações sobre a associação do álcool com câncer, informar nos rótulos das bebidas alcoólicas o risco de câncer, o que, certamente traria muitos benefícios à saúde da população.

Fonte: https://www.nature.com/articles/s41416-020-01101-2


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