Álcool: um provável fator de risco para o agravamento da COVID-19

Autores: Saengow U, Assanangkornchai S, Casswell S

Link para o artigo original: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/add.15194



Traduzido por Juliana Valente


A pandemia da COVID-19 tem contribuído para muitas fatalidades em todo o mundo. Sepse, falha respiratória e síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) ocorreram na maioria dos casos fatais [1].

Vários fatores clínicos foram evidenciados como fatores de risco para o agravamento e morte de COVID-19 [1,2]. Dentre os fatores de risco modificáveis para a saúde, o tabagismo tem recebido atenção especial, juntamente com fatores clínicos. Uma revisão sistemática realizada recentemente identificou cinco estudos que exploram os efeitos do tabagismo no agravamento da COVID-19 [3]. A Organização Mundial de Saúde enfatizou particularmente a vulnerabilidade de fumantes para COVID-19 [4,5]. Há também estudos que denotam evidência emergente da associação da obesidade, outro fator de risco modificável, com o agravamento da COVID-19 [5-7]. A obesidade está intimamente relacionada com dois fatores de risco comportamentais: dieta pobre e falta de atividade física [6]. O consumo de álcool não tem recebido muita atenção apesar de vários estudos relatarem que o consumo de álcool aumenta o risco de SDRA em pacientes com condições críticas bem como a admissão em unidade de terapia intensiva (UTI) em pacientes com pneumonia [8-10]. Até o momento em que este artigo foi escrito, nenhum estudo publicado que explorou os fatores de risco ao agravamento da doença em pacientes com COVID-19 incluíram o consumo de álcool como uma covariável.

Um estudo de coorte prospectivo evidenciou o efeito independente do abuso crônico de álcool na SDRA em pacientes gravemente enfermos [8]. Uma recente revisão sistemática e meta-análise encontrou que qualquer medida, desde o alto ao baixo consumo de álcool, foi associada a um significativo risco aumentado de SDRA (Odds Ratio [OR] 1,89; IC de 95%, 1,45-2,48) [10]. O álcool pode aumentar o risco de desenvolver SDRA por meio de vários mecanismos, incluindo disfunção do epitélio alveolar, estresse oxidativo induzido pelo álcool e interferência da função dos macrófagos alveolares [11]. Em pacientes internados com pneumonia, ter um diagnóstico relacionado ao álcool foi associado com maior probabilidade de admissão na UTI (OR 1,63) e maior tempo de internação (adicionando 0,6 dias extras) [9]. O consumo crônico álcool de pode induzir disfunção ciliar nas vias aéreas, o que reduz sua capacidade de eliminar bactérias e vírus [11]

Os efeitos do consumo de álcool têm implicações importantes para o manejo de pacientes com COVID-19. História de uso de álcool pode ser um importante preditor para a gravidade da doença e para admissão na UTI. Além disso pode contribuir para o desenvolvimento da estratégia de tratamento para pacientes com COVID-19 e com uso de álcool, uso de álcool crônico e com transtornos relacionados ao consumo. Portanto, o papel do consumo de álcool no agravamento da COVID-19 deve ser melhor explorado e a história de consumo de álcool deve ser incluída como um provável fator de risco de agravamento da doença em estudos de COVID-19.

Desta forma, é muito importante que mais atenção seja dada aos prováveis ​​efeitos do consumo de álcool o agravamento da COVID-19 por autoridades, pesquisadores e profissionais de saúde.


References

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