Educação em saúde, escola e a indústria do álcool: o que é preciso saber?

Por Pollyanna Medeiros


A adolescência é uma fase especial na vida do indivíduo. Estudos apontam que o uso álcool e outras de drogas por adolescentes trazem riscos adicionais aos que ocorrem com adultos em função da vulnerabilidade e do desenvolvimento do organismo nesta fase da vida. Como intervir nesta faixa etária? A estratégia indicada é a realização de programas e atividades preventivas no ambiente escolar. Considerando que a escola constitui um espaço de aprendizado, sociabilidade e que, a maior parte da população de adolescentes, cruza a escola com idade importante para adquirir conhecimento. Recomendações baseadas em evidências sugerem para educação escolar sobre o álcool os seguintes aspectos: a) usar um currículo espiral, ou seja, os alunos estudarem a cada ano tópicos com mais complexidade para reforçar os conteúdos anteriores; b) integrar o trabalho em toda escola na perspectiva do bem-estar; c) vincular atividades de educação em saúde com o apoio dos alunos; d) investir em habilidades sociais e habilidades de vida; e e) incorporar atividades juntos aos pais/responsáveis e comunidade. Além disso, recomenda-se que os professores sejam treinados e que tenham tempo para o planejamento das atividades e que o uso de atividades de intimidação seja evitado.


Neste contexto de intervenção, tem surgido intervenções ofertadas pela indústria do álcool, intervindo no ambiente escolar. O que precisamos saber? A indústria do álcool fornece programas de educação para o álcool como uma atividade de responsabilidade social, ou seja, na prática são agentes comerciais entrando no campo pedagógico. A indústria do álcool utiliza o investimento em ambientes escolares para melhorar sua imagem corporativa como uma indústria confiável, atenciosa, socialmente responsável e até saudável. Essa abordagem tem ocorrido na Nova Zelândia com o Programa Smashed, por exemplo, mas que são utilizados pela indústria em diferentes países como uma estratégia globalizada. Em 2020, foi sugerido um investimento na aplicação deste programa nas escolas em âmbito nacional. Esse é um programa cuja avaliação de efeito é realizada pela própria indústria, o que apresenta inclusive conflito de interesse.


A indústria utiliza como foco o consumo e associação com os danos a partir de uma abordagem para responsabilidade individual, bem como, escolhas responsáveis e que essa decisão pessoal seria a chave da mudança. Como responsabilizar o adolescente que está em fase de desenvolvimento por escolhas individuais? Qual a capacidade de escolher algo quando o uso traz intoxicação? No entanto, essa estratégia da indústria é ambígua, uma vez que sabe-se que o ambiente é uma grande influência para o consumo de álcool, mais que as decisões individuais.


A indústria do álcool fornece programas de educação para o álcool como uma atividade de responsabilidade social, ou seja, na prática são agentes comerciais interferindo em currículos escolares e na percepção que as crianças e adolescentes tem sobre o álcool. A oferta de prevenção ao uso de álcool entre escolares parece uma ação positiva de saúde pública, quando na verdade é uma estratégia de marketing tanto para os pais quanto para as crianças que irão se acostumando com o nome da marca e, além disso, recebem informações duvidosas do ponto de vista científico. Para o desenvolvimento de intervenções com crianças e adolescentes no ambiente escolar é preciso utilizar programas e estratégias baseadas em evidências. É fundamental ter cautela quando a indústria que causa tantos danos sociais é a mesma instituição responsável pela prevenção da substância que causa o problema, já que boa parte dos lucros desta indústria vem do consumo por parte dos adolescentes, conforme estudos recentes demostraram. Sabe-se que prevenir ainda é melhor que remediar!


Fonte: https://www.nzma.org.nz/journal-articles/the-practice-of-the-alcohol-industry-as-health-educator-a-critique