Impacto do uso de álcool nos cuidados em saúde durante a pandemia de COVID-19

Por Juliana Plens


O aumento do consumo de álcool durante pandemia da COVID-19 está associado a importantes implicações à saúde geral e mental da população e, consequentemente, à saúde pública. Globalmente, o álcool contribui com 20% das lesões e 11,5% das entradas em salas de emergência sem lesões. Este estudo foi realizado com o propósito de comparar hospitalizações e mortes atribuíveis ao álcool e aquelas relacionadas ao COVID-19 na América do Norte.

Sabe-se que o uso do álcool está associado ao risco de infecções pulmonares graves (incluindo pneumonia viral e bacteriana), aumento do risco de violência doméstica, abuso infantil e maiores taxas de depressão e suicídio, os quais têm seus índices agravados em momentos de isolamento social como o imposto pela pandemia, devido a maior convivência e conflitos interpessoais.

Estimou-se que no Canadá, em 2017, havia 105.065 hospitalizações atribuíveis ao álcool, o que representa uma taxa substancialmente mais alta ao longo do tempo do que as 10.521 hospitalizações por COVID-19 relatadas durante os primeiros 5 meses da pandemia.

As causas de admissões hospitalares associadas ao álcool variam desde causas diretas, como síndrome de abstinência, por exemplo, a outras situações como acidentes de trânsito, cânceres e doenças hepáticas. As medidas de bloqueio do COVID-19, incluindo o fechamento de bares e casas noturnas, reduziram alguns tipos de apresentações em salas de emergência, por exemplo, acidentes de trânsito. Reduzir, portanto, a disponibilidade de álcool é a melhor maneira de limitar a carga sobre os serviços de saúde neste e em qualquer outro momento. Além disso, a ingesta de bebidas alcoólicas prejudica medidas comportamentais preventivas como, por exemplo, lavagem das mãos e manutenção do distanciamento social necessários para o controle da atual pandemia.

Entretanto, apesar da importância atual de proteger os serviços de saúde, a maioria dos governos considera que as vendas de álcool são um serviço essencial, alegando que a continuação do abastecimento de álcool às suas populações se faz necessária para evitar que crises graves de abstinência contribuam para a lotação hospitalar, embora se saiba que apenas uma pequena proporção da ocupação dos leitos hospitalares devido ao uso de álcool se associa a casos de abstinência. Em muitos países, o álcool está agora mais disponível e acessível do que nunca, uma situação da qual os produtores globais de álcool se beneficiam e ajudam a projetar, focando no aumento da disponibilidade e acessibilidade de seu produto neste momento, aumentando ainda mais a carga do álcool nos serviços de saúde e emergência.

O atual trabalho conclui que para proteger os serviços de saúde e a saúde pública de maneira geral, reduzir os impactos sobre esses serviços e sobre os profissionais de saúde da linha de frente e gerar receitas necessárias para os governos neste momento crítico, são necessárias uma série de políticas que exijam que os cidadãos suportem restrições relacionadas a acessibilidade ao álcool, como a introdução de restrições baseadas em evidências sobre os preços (aumentos nos impostos especiais de consumo juntamente com o preço mínimo por unidade), a disponibilidade e o marketing do álcool. Tais políticas poderiam reduzir os custos econômicos e os impostos mais altos poderiam fornecer receita adicional muito necessária para governos com falta de dinheiro e ressalta ainda que, embora tenha havido apoio universal para os profissionais de saúde da linha de frente, não houve praticamente debate público ou atenção adequados sobre como o uso contínuo de álcool é um enorme fardo para muitos países.


Fonte:

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7461236/pdf/DAR-9999-na.pdf