Por que os depoimentos não têm lugar na prevenção do uso de drogas?




Boas intenções, mas com consequências potencialmente ruins

O uso da abordagem de depoimentos pessoais de indivíduos em recuperação é baseado no pressuposto de que o público-alvo ouvirá uma pessoa "real" que "esteve lá" contando "sua história" e que o público "aprenderá" com essa experiência. De acordo com a especialista Caroline Kahiu, é uma suposição errada porque os testemunhos não podem eliminar as razões pelas quais alguém começa a usar drogas e pelas quais continua o uso.

É certo que muitas vezes a abordagem dos depoimentos é usada com as melhores intenções. No entanto, a prática de depoimentos não tem lugar na prevenção do uso de drogas baseada em evidências. E, na pior das hipóteses, os depoimentos podem até aumentar o risco de danos futuros relacionados ao uso de drogas.

Ao falar para um público em recuperação de dependência de drogas, o depoimento pessoal pode ser uma ferramenta poderosa para esperança, mas como estratégia de prevenção universal é inapropriado devido ao potencial de dano’ - PREVENTION TOOLS, What works, what doesn’t (Washington State Health Care Authority).


Glamourizar (não intencionalmente) ao invés de prevenir

A estratégia educativa dos depoimentos pode ser contrária à prevenção e pode encorajar o uso de drogas entre jovens suscetíveis ou vulneráveis. Ao darem depoimentos, as pessoas em recuperação do transtorno do uso de drogas e do vício correm o risco de exaltar o comportamento danoso, especialmente para os jovens que podem perceber o uso de drogas como “legal”. Isso ocorre porque sua experiência lhes confere status - afinal, eles estão ali falando diante de pessoas, em posição de destaque, e chamam a atenção de grandes públicos. Ao fazer isso, o reconhecimento dos riscos e danos são ofuscados pela pessoa em si e pelo sucesso social.

‘Mesmo que sua história seja poderosa, o depoimento pessoal normaliza o uso de drogas, reforçando a norma incorreta de que "todo mundo usa"’ - PREVENTION TOOLS, What works, what doesn’t (Washington State Health Care Authority)

Outra dimensão da exaltação do uso de drogas é que, ao compartilhar suas experiências com o uso de drogas, os depoimentos correm o risco de, inadvertidamente, destacar alguns benefícios subjetivos do uso de drogas, como aumento da confiança ou felicidade. Em um ambiente de prevenção, onde pode haver jovens vulneráveis ​​e suscetíveis presentes, essas mensagens são claramente contraproducentes e até potencialmente prejudiciais.


Elementos de prevenção baseada em evidências

Descobrir o que funciona na prevenção do uso de drogas tem sido um desafio. O objetivo da prevenção do uso de drogas é alterar atitudes e comportamentos e fortalecer os fatores de proteção, ao mesmo tempo que reduz os fatores de risco.

As pesquisas mais recentes mostram que existem intervenções e estratégias eficazes que reconhecem quando, quem, como e com quem intervir, para buscar efeito positivo na prevenção ao uso de drogas.

Entre os jovens, está comprovado que os pais, irmãos e amigos são os mais importantes agentes de socialização e influência na prevenção do uso de substâncias. Também se sabe que as pessoas com maior risco de uso de drogas são aquelas que estão lidando com dificuldades passadas ou presentes, incluindo trauma, rejeição, doenças mentais e desafios de desenvolvimento ou de interação social.

As evidências mostram que os profissionais treinados para tal oferecem melhores programas de educação preventiva, incorporam fatos objetivos, focam nas normas sociais, evitam táticas de intimidação e promovem escolhas de estilo de vida saudáveis.


Um espaço para os depoimentos

A especialista Carolina argumenta que existe algum espaço para a utilização da prática de depoimentos pessoais, mas não na prevenção. Em ambientes de tratamento ao uso de drogas, entre pessoas em situações semelhantes, os depoimentos podem ter um papel importante.

No espectro de tratamento, recuperação e serviços de apoio, o compartilhamento de experiências da vida real deve ser transformado em serviço de apoio à recuperação e de suporte a grupos de ajuda. Os palestrantes que compartilham testemunhos são qualificados para oferecer apoio na recuperação em virtude de sua "experiência pessoal" com o transtorno de uso de substâncias, dependência e recuperação.


A EQUIPE DO PREVINA ESTÁ DE ACORDO COM OS COMENTÁRIOS APRESENTADOS PELA EQUIPE DA MOVENDI E DESENCORAJA A UTILIZAÇÃO DE “TESTEMUNHOS” COMO ESTRATÉGIA DE PREVENÇÃO PRIMÁRIA EM ESCOLAS.


https://movendi.ngo/blog/2021/12/12/why-testimonies-have-no-place-in-drug-use-prevention-and-where-the-practice-could-feature/