Apresentando a Nova Era da “Journal of Primary Prevention”: “Journal of Prevention”

A Prof. Zila Sanchez assumiu em janeiro de 2022 o posto de Editora-Chefe da “Journal of Prevention”, a revista científica oficial da Sociedade Europeia de Pesquisa em Prevenção. A professora escreveu um editorial para apresentar a nova versão da revista, que anteriormente se focava na publicação de estudos científicos no âmbito da prevenção primária e agora ampliou seu escopo. O texto original foi escrito em inglês e está disponível aqui. A versão abaixo é sua tradução para o português feita por Mariana Guedes.


"É com grande prazer que dou as boas-vindas à primeira edição da versão renovada da “Journal of Primary Prevention”. A revista inicia o ano de 2022 filiada à “European Society for Prevention Research (EUSPR)” e recebe um novo nome, que amplia seu escopo: “Journal of Prevention”. Tenho a honra de ser a nova Editora-Chefe, trabalhando em estreita colaboração com um Conselho Editorial altamente qualificado, incluindo 11 Editores Associados que são especialistas amplamente respeitados na área.

Como "Official Journal of The European Society for Prevention Research", procuraremos garantir que cada edição da revista reflita a missão central da Sociedade, que é "promover o desenvolvimento da ciência da prevenção e sua

aplicação na prática, de modo a promover a saúde e o bem-estar humano por meio de pesquisas de alta qualidade, intervenções baseadas em evidências, políticas e práticas”.

Meu objetivo é trabalhar em estreita colaboração com o Conselho Editorial para aproveitar o que foi alcançado até agora e aprimorar ainda mais o conteúdo, a visibilidade e o impacto da revista. Incentivaremos a revista a contribuir com

todas as áreas emergentes no campo da ciência da prevenção, com ênfase em intervenções comportamentais, refletindo um foco na prática de prevenção – um elo essencial entre a pesquisa acadêmica e a prática profissional.

Procuraremos também atrair novos leitores e autores. Para fazer isso, estamos (1) expandindo a população-alvo descrita nos manuscritos e investigando os resultados de saúde e sociais em conjunto; (2) incluindo quatro novas seções—Narrativas de experiências práticas, Debate, Carta ao Editor e Política; (3) garantindo que cada uma das seis edições anuais da revista abranja diferentes metodologias e disciplinas e reflita uma maior diversidade de temas, população e localização geográfica dos autores; e (4) comprometendo-nos a tomar decisões editoriais rápidas com o envolvimento de um grupo de revisores altamente qualificado.

Como mulher brasileira, ser Editora-Chefe de uma revista filiada a uma sociedade Europeia – com a qual estou envolvida há muito tempo – me permite garantir uma maior diversidade de pensamento e abordagem. Vale, portanto, afirmar explicitamente que o escopo da revista vai além dos países mais desenvolvidos economicamente, e estamos abertos a receber estudos de diferentes continentes e culturas.

Também estou entusiasmada para a “Journal of Prevention” se envolver com os desafios atuais no campo. Nos últimos anos, por exemplo, houve um grande investimento no desenvolvimento e avaliação de programas de mudança de comportamento destinados a reduzir os fatores de risco para os principais problemas de saúde mental e os fatores de risco para doenças não transmissíveis (DNTs). Embora o aprendizado tenha sido significativo, precisamos refletir sobre duas situações críticas: (1) programas manualizados são limitados à implementação em pequena escala; e (2) seus efeitos, quando existentes, não podem impactar na prevalência e incidência da doença na população geral (nem mesmo em nível nacional e muito menos em nível global). Isso levanta a questão: estamos investindo nossas moedas em ações de baixo retorno? Em geral, há um investimento considerável de tempo e recursos no desenvolvimento de programas com implementação limitada e avaliando-os por meio de estudos de eficácia em condições supercontroladas. A avaliação da eficácia, que se baseia na ampla implementação em circunstâncias da vida real, preferencialmente em um contexto de divulgação em que o programa se tornou uma política pública, é mais rara. Em um esforço para preencher essa lacuna, assistimos ao surgimento da Ciência da Implementação: um conjunto de estratégias científicas que permitem a adaptação adequada das intervenções preventivas às condições da vida real, visando a disseminação sustentável e de alta fidelidade.

Um desafio relacionado é que evidências científicas robustas de estratégias de prevenção internacionalmente bem-sucedidas não são transferidas para áreas compatíveis, mesmo quando poderiam ser. Tomemos o exemplo da redução mundial do consumo de tabaco. Embora hoje saibamos que a melhor estratégia para reduzir o tabagismo e todas as doenças crônicas não transmissíveis causalmente relacionadas a esse comportamento foi uma mudança radical na regulamentação, por meio de políticas públicas, não adotamos a mesma abordagem para outros comportamentos de risco. A inatividade física e o consumo de álcool, drogas e alimentos ultra processados ​​devem ser combatidos globalmente por meio de políticas públicas preventivas. Mas eles não são. Na maioria dos países, a legislação para reduzir a exposição da população aos principais fatores de risco para mortalidade precoce é falha ou inexistente.

A prevenção ambiental é um dos vários campos promissores para abordar os principais fatores de risco para doenças e danos ao nível da população que esperamos abordar na “Journal of Prevention”. Essas estratégias e políticas de intervenção relativamente novas visam diminuir as oportunidades de comportamentos de risco ou promover opções mais saudáveis, alterando o ambiente para influenciar discretamente o comportamento humano.

Neste momento, imersos em uma terceira ou quarta onda de casos e mortes pela pandemia de Covid-19, nunca foi tão evidente a necessidade de dar voz e palco à prevenção. A vacinação, uma das estratégias preventivas mais antigas e eficazes para doenças infecciosas, tem sido notavelmente bem-sucedida em muitos países no combate à Covid-19. No entanto, muitas pessoas também a rejeitaram, apesar de ser apoiada por fortes evidências científicas. Nesse contexto, o planeta precisa de mais investimentos inovadores em prevenção comportamental para aprimorar estratégias para vacinar sete bilhões de pessoas e convencê-las a aceitar as intervenções de saúde pública farmacológicas e não -farmacológicas mais eficazes. Além disso, chegou a hora de desenvolver e avaliar intervenções inteligentes e eficazes que ajudem a reduzir as chances de agravamento de complicações físicas e psicológicas que já identificamos como decorrentes do isolamento social e dos traumas vivenciados nos últimos meses.

Farei o meu melhor, juntamente com os Editores Associados e outros colegas do Conselho Editorial, para garantir que a “Journal of Prevention” desempenhe o seu papel de permitir que a ciência de alta qualidade auxilie na promoção do bem comum.

O planeta clama por prevenção e nossos jovens, após a Covid-19, precisam dela mais do que nunca, mas não estamos ouvindo. Muitos insistem nos dias de hoje em ignorar as evidências científicas, abrindo espaço para serem manipulados por influenciadores obscuros que questionam a essência e a existência da ciência. Na medida em que não entendemos que todos somos responsáveis ​​por todos, continuaremos à deriva."


Zila M. Sanchez, PhD

(Zila van der Meer Sanchez Dutenhefner)

Professora Associada de Epidemiologia

Departamento de Medicina Preventiva

Universidade Federal de São Paulo