Abstinência do álcool e mortalidade: contrapondo evidências anteriores

Por Pollyanna Pimentel


Há uma preocupação em identificar o efeito dos diferentes padrões de uso de álcool na mortalidade. Alguns estudos transversais realizados no passado identificaram que abstinência de álcool estava associada a maior mortalidade no mundo. Este dado sempre foi intrigante, pois no geral os padrões mais nocivos de uso de álcool vinham também sendo identificados como risco de mortalidade.

Para buscar mais evidências, pesquisadores realizaram um estudo de longo prazo na Alemanha, no qual coletaram dados de 4028 sujeitos em dois momentos do tempo, inicialmente entre os anos de 1996 e 1997 e, posteriormente nos anos de 2017 e 2018, ou seja, 20 anos depois. Na segunda etapa, foi realizado um acompanhamento da mortalidade a partir das declarações de óbito.

O objetivo da pesquisa foi analisar os fatores de risco para morte precoce entre entrevistados adultos que indicaram que haviam se abstido de álcool durante os últimos 12 meses antes da entrevista no início do estudo (anos 90).

Os principais achados foram, primeiro, entre os abstêmios no início do estudo, 90,60% tinham histórico de consumo de álcool. Em segundo lugar, a maioria dos abstêmios de álcool no início do estudo tinha fatores de risco para morte precoce: consumo nocivo de álcool anterior, tabagismo e autoavaliação de saúde ruim. Terceiro, os abstêmios de álcool sem histórico óbvio de riscos relacionados ao álcool ou tabagismo diário que autoavaliaram sua saúde como boa, muito boa ou excelente tinham uma expectativa de vida semelhante à de bebedores moderados de álcool.

Os resultados sugerem que as pessoas da população geral que atualmente se abstêm de álcool não têm necessariamente um tempo de sobrevivência mais curto do que a população com consumo baixo a moderado de álcool, visto que parte destas já teve anteriormente um histórico de consumo de álcool e diversos outros fatores de risco. Assim, o aumento dos riscos de mortalidade entre os abstêmios pode ser amplamente explicado por problemas anteriores com álcool ou drogas, consumo nocivo de álcool, tabagismo e autoavaliação da saúde como regular a ruim. Os resultados vão contra as recomendações para beber álcool por razões de saúde.

Fonte:

https://journals.plos.org/plosmedicine/article?id=10.1371/journal.pmed.1003819