O bullying precisa ser prevenido. Mas, o que funciona nos programas escolares anti-bullying?

Por Patricia Galvão


Muitas pesquisas já mostraram que programas anti-bullying nas escolas são eficazes. Mas qual a relação entre a eficácia e os elementos ofertados de programas anti-bullying? Um recente estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Cambridge no Reino Unido, avaliou quais são os componentes fundamentais para que os programas anti-bullying sejam eficazes e estes componentes foram codificados nos seguintes níveis: escola, sala de aula, professor, pais/responsáveis, colegas, individual e intervenção.

No nível escola foram avaliadas duas questões: (1) abordagem antibullying de todos os funcionários da escola e (2) política anti-bullying. No nível sala de aula foi avaliado o componente de regras claras em sala de aula. Já no nível do professor, foi analisada a participação dos professores no programa anti-bullying e o treinamento de professores para facilitar especificamente o programa anti-bullying em suas respectivas salas de aula.

No nível pais/responsáveis também foram avaliados dois componentes: (1) informação dos pais, fornecimento de informações aos pais sobre questões relacionadas ao bullying por meio de folhetos ou algum outro material que os alunos recebem para levar para casa e (2) envolvimento ativo dos pais, ou seja, pais que participaram de reuniões realizadas por funcionários da escola ou por facilitadores de intervenção.

No nível dos colegas foram avaliados o componente de envolvimento informal dos pares, que se refere às discussões gerais em grupo durante as intervenções e o componente de envolvimento formal dos pares, que se refere a presença de estratégias de intervenção específicas para encorajar alunos espectadores (que não estão na situação de bullying) a prevenir o bullying ou a intervir em situações de bullying. No nível individual foram analisados três componentes: (1) trabalho individual com os agressores, (2) trabalho individual com a vítima e (3) trabalho cooperativo em grupo (envolvimento de profissionais externos diretamente com vítimas e/ou agressores).

No nível da intervenção outros componentes foram avaliados: (1) presença ou ausência de materiais curriculares, (2) inclusão de habilidades socioemocionais, (empatia, resolução de conflitos, resolução de problemas, autocontrole, tomada de decisões, e habilidades pró-sociais ou de enfrentamento), (3) questões de saúde mental (técnicas ou estratégias para problemas de saúde, como ansiedade ou depressão) e (4) medidas disciplinares.

Os resultados indicaram que a presença de uma série de componentes na intervenção está significativamente associada a tamanhos de efeito maiores para a escola, mas que não necessariamente as intervenções que incluem muitos ou todos estes componentes na intervenção terão resultados em eficácia significativamente maior.

Resumindo, os componentes que tiveram os melhores resultados para a redução da prática de bullying foram: presença de uma abordagem que envolva toda a comunidade escolar, regras de sala de aula, informações para os pais, envolvimento informal dos pares, habilidades socioemocionais, atividades relacionadas à saúde-mental e trabalho cooperativo em grupo. Já para a vitimização por bullying os componentes que tiveram os melhores resultados foram: envolvimento informal de pares e informações para os pais. Importante ressaltar que nem a presença nem a ausência de qualquer componente foi significativamente associado a resultados de intervenção indesejáveis, ou seja, um aumento nos resultados de bullying.


Fonte: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022440520300753?casa_token=ttD0jpkwjxkAAAAA:qgue6_5XIjrc57uimEqBTBTW6oTz1SlkIEV2uRhF7ld6X9LaUcO0jQFYr99H_E6R41IbqFhDyg